Como toda a gente sabe, o Natal, para quem acredita no nascimento de Jesus, é uma festa religiosa em que se comemora o Seu nascimento. Simboliza Paz e Amor entre os Homens de boa vontade. Também simboliza luz para toda a humanidade.
Os natais da minha infância eram fisicamente pobres, mas de uma riqueza incalculável sobretudo em amor. Passavam-se como tantos outros. Em família.
Quando criança esperava com ansiedade pelo tão desejado dia vinte e cinco de Dezembro de cada ano, rezando e pedindo fervorosamente ao menino Jesus, um presente. Não era assim tão fácil obtê-lo, pois tinha os seus requisitos. Por vezes as dificuldades financeiras dos meus pais, nem sempre eram as mais desejadas embora vivessem com um certo desafogamento num meio rural, aonde a terra era o seu sustento e da qual o trabalho árduo do meu pai, que era proprietário de pequenos prédios rústicos e da minha mãe, uma exímia dona de casa. Esse tão singelo pedido de criança ao menino Jesus, também dependia muito do meu comportamento durante o ano.
Recordo-me duma estratégia inteligente e sábia de minha mãe, que para me portar bem, perguntava-me repetidamente o que queria que o menino Jesus me desse para o Natal. Ora claro!.. era sem sombra de dúvida, aquele brinquedo que já tinha planeado a algum tempo atrás e enquanto me lembrasse daquelas palavras sábias de minha mãe, o meu comportamento de menino era o mais perfeito possível.
A noite de Natal aproximava-se e o presente era o resultado do meu comportamento. Era tradição, todas as crianças daquela época, colocarem o sapatinho debaixo da chaminé. Eu, porém, também não fugia à regra: lá ia eu antes de adormecer, lembrando a minha mãe que o meu sapatinho já lá estava.
Ao outro dia, logo pela manhãzinha, nem precisava que ninguém me acordasse, levantava-me dum pulo e lá ia eu todo lampeiro ver o presente que o menino Jesus me tinha posto no meu sapatinho. Se o meu pedido não me tinha sido satisfeito, ficava muito triste como que se já ninguém gostasse de mim.
Porém, havia sempre uma compensação.
A minha mãe; para eu fazer face ao frio que se fazia sentir na invernia gélida da altura do ano, prendava-me com uma camisola, um par de calças, uns sapatos, etc., assim também não deixava de ser uma prenda do menino Jesus.
A casa aonde nasci, era muito grande e proporcionava-me as mais variadas brincadeiras com aqueles meninos que eram mais meus amigos.
Na véspera do Natal, todo aquele casarão, entrava em plena azáfama de constantes e diversas tarefas, pois era o meu pai a acender grandes lumes na lareira, a minha mãe a tratar da confecção dos alimentos, a minha segunda mãe ajudava também naquilo que era preciso, aquela que foi minha ama e uma extraordinária empregada, surda muda, que me ajudou com primor a crescer até à idade de eu ter que partir da casa dos meus pais.
Matava-se o perú e o maior galo criados na nossa capoeira,confeccionavam-se as mais variadas iguarias alusivas à ceia de Natal, aonde não faltava o célebre bacalhau cozido com batatas e couves tronchudas, também o polvo de meia cura e as guloseimas tradicionais.
Há hora da ceia, toda a família se reunia de volta da mesa, saboreando todas aquelas iguarias cozinhadas à lareira. Conversavam e matavam saudades, sobretudo aqueles que estavam ausentes e vinham propositadamente passar o Natal connosco. Pela imposição das horas, a noite ia avançando e os nossos corações estavam cada vez mais iluminados pelo terno amor que nos unia. Ao soar da meia noite, toda a família se encaminhava para a igreja matriz da terra que me viu nascer. (Freixo de Espada à Cinta). Naquela missa, diferente de todas as outras, entoavam-se cânticos louvando o menino Jesus e por fim ia-se beijar a sua imagem.
De regresso a casa, reuníamo-nos de novo, em volta do lume a crepitar, cujo melhor tronco seria queimado naquela noite tão especial.
Os mais velhos, contavam histórias e contos, que me faziam sonhar deitado no colo da minha mãe.
E eram assim os meus natais de menino
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